quarta-feira, 18 de maio de 2011

"Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu."
(Fernando Pessoa)

DÉCIMO SEGUNDO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ

"Não consegui. Do grande esforço através dos doze meses, doze signos, doze faces, só guardo essa certeza. Que tonta travessia. Tudo bem, descansa. Faz parte não conseguir. Como Sísifo, se queres mitologias. Queres ainda? Por favor, estou farto. Brilhos baratos, as jóias eram todas falsas. Está certo, mas não quiseram te fazer mal. O mal não existe reverso do bem. Tanto faz, só peço que me deixem. Vou ficar encostado na árvore até amanhecer. Olhos abertos, feito uma vela acesa. Se ela insistir, direi que não tenho piedade alguma. Que não compreendo, não aceito nem perdôo mais a loucura. Se ele vier, pedirei que fique. Serei bom para ele. Mentira, não pedirei nem direi nada a ninguém. É indivisível, aprendi. Talvez consiga dormir. Talvez consiga acordar amanhã finalmente livre de tudo isso. Terei apenas um corpo, poucos pensamentos todos pequenos. Sei que foi inútil quando os vejo obstinados recomeçar e recomeçar sempre. Uma serpente que morde a própria cauda, um círculo infinito de enganos, Maya. Talvez não, perdeste a fé? Não te castiga assim, está tudo em paz. Nunca houve cães. É como uma cantiga de ninar nas cinzas do fim do mundo. Um barbitúrico, se preferires. Entorpece, melancólico, te leva para longe. Já se perdeu, não há futuro. Repousa, meu amigo. Deixa-me passar a mão nos teus cabelos. Está amanhecendo. Em voz baixa, eu canto para te enganar."
Relacionamentos são estranhos..na sua maioria se desgastam, de uma maneira sutil...quando nos damos conta JÁ ERA...


"tenho pensado muito nos teus olhos. cor de avelã. folhas de outono. perdi-os nas estações.os teus lábios, como as cerejas pedem dias quentes. e a minha boca serão todos os teus dias. e a tua face todas as minhas noites. tenho pensado muito nesse tempo em que corrias. os braços ficavam-te curtos. ao nível da cintura. enrugados pela chuva. pegar-te-ei ao colo noutro inverno. levo-te às neves altas. subterfúgios. nunca soubeste dos bosques. como sebes são os teus cabelos. tenho saudades do teu corpo. pássaro ferido. as tuas lágrimas um caudal de rio. ao entardecer. e as tuas mãos. sempre as tuas mãos. tinham cidades adormecidas. pequenos ouvidos para contar grandes segredos. fomos morrendo. não há tempo, nenhum lugar é nosso. a foz nas tuas pernas. viradas para o mar. os pés como janelas entreabertas. nenhum peixe no umbigo. no teu peito nem um barco atraca. o sal nas dobras. só. sal e sargaço. e a morte sempre ali ao pé."

Do blog Na rua de cima

segunda-feira, 16 de maio de 2011

"só não sabemos por que dói às vezes. por ser deserto por certo. também o coração não tarda a existir dentro de todos os corpos que amei. fico em silêncio. nenhum movimento me pertence. quero dizer-te hoje que está um bom dia. para correr. para chorar um pouco. para escrever sobre estas árvores de onde subitamente se levanta o vento. estou só. ando há algum tempo só. talvez por ser assim mais fácil esquecer o coração. há rostos que te lembram da vida. queria também dizer-te que faz frio no azulejo e os pássaros procuram no telhados lugares para fazer ninho. quero um ninho posto do lado esquerdo do peito. talvez também por ser deserto fico sem voz. há qualquer coisa de descoberta em não ter voz. em doer-nos o mundo. lá fora. fico quieta. talvez algum pensamento me visite. este domingo está fresco."